Orar com o coração
- Osmar Ludovico
- 12 de mar. de 2021
- 6 min de leitura
Orar com o coração significa dizer que nos dirigimos a Deus com nossa inteligência mas também com os nossos sentimentos, ou ainda que o relacionamento com Deus é um relacionamento de amor que diz respeito ao ser humano por inteiro.
Assim nos lembra Jesus Cristo quando ele nos diz: “Amaras o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com todo o teu entendimento”. Aprendemos então a fazer um caminho na nossa vida de oração e dando cada vez mais lugar à intuição, ao afeto, à poesia e à realidade pessoal.
No entanto não pensamos em um relacionamento afetivo com Deus. Pensamos geralmente em termos de uma oração narcisista: me dá, me dá, como se Deus encorajasse a ambição, o egoísmo. A oração do coração é um abrir portas para a comunhão com Deus, oramos porque Deus é relacional, é Pai, é Emanuel, Deus conosco. Assim Deus não espera de nós simplesmente uma vida de oração, como se a oração fosse um fim em si mesmo. Mas Deus espera de nós que através da oração nos tornemos seus amigos,um relacionamento de mente coração e espírito.
Orar com o coração significa entrar na comunhão com o Deus Trino. Significa aprender a amá-lo, isto é estabelecer com Ele um relacionamento de afeto, um vinculo de ternura.
Esta oração do coração é uma oração do secreto. Ela se dá no contexto da solitude, do silencio da porta fechada, da devoção pessoal, única, intransferível. A oração do coração nos dá a força e os meios de obedecer e servir a Deus.
É uma oração como já dissemos essencialmente pessoal. Naturalmente que a oração comunitária é importante, mas este relacionamento pessoal com Deus, esta qualidade de vida devocional no secreto é que dá o sentido de nossa vida religiosa.
Isto porque o cristianismo bíblico não é uma moral, uma filosofia ou tampouco um ritual, mas fala de um Deus que é amor, que se revela aos homens e que quer estabelecer um vinculo com eles. O amor se compõe de dois elementos: querer-se e compreender-se. O coração e a mente. O amor e a comunicação. O afeto e a palavra. Jesus percebeu este duplo movimento e o exprimiu claramente: "Como o Pai vos amou eu também os amei. Jo 15.9. E: ... mas vos tenho chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado conhecer. Jo 15.15. Vos amei e vos deixei conhecer tudo. Amar e contar. O sentimento e a revelação. Em ambos a recordação do Pai. Seu amor está em todo amor e seu conhecimento em todo conhecimento. Todo encontro toda comunhão tem um toque de eternidade, tem profundidade trinitária, tem um sinal sagrado.
Sabemos no entanto que este amor, esta revelação e esta abertura de Deus aos homens passa pela encarnação de seu Filho e de sua morte no calvário. Se de um lado podemos dizer que este amor no humaniza, podemos também dizer que a oração do coração começa com a contrição, pelo sentimento profundo de pequenez, de fragilidade, de necessidade de cura e de perdão. Se constata que o Deus Santo veio ao encontro dos pecadores para redimi-los. Se percebe a graça. Assim começamos com o arrependimento, como quebrantamento. Aqui estamos diante do mistério desta graça, deste favor imerecido, inconquistável e impossível de ser retribuído. Se nos aproximarmos desta realidade somente com nossas mentes racionais e intelectuais não experimentaremos o sentimento da tristeza do arrependimento para a salvação (tristeza não depressiva, mas tristeza transformadora) II Co 7.10. Tristeza de termos ofendido a Deus, tristeza pela morte vicária de Cristo. Sem esta tristeza do arrependimento, tampouco experimentamos o sentimento de alegria indizível de termos sido aceitos, perdoados e abraçados por Deus.
Podemos dizer, mesmo, que a base da vida cristã reside nesta alegria de alma, nesta celebração íntima, de um regozijo inexplicável, no profundo de nosso ser, uma doce, leve, alegre constatação de estamos diante da face amorosa de Deus, que nos perdoa, nos aceita, e nos recebe em sua presença, fazendo de nós pecadores, seus filhos amados.
Este sentimento, este encontro, esta celebração, esta oração alegre do coração cumpre o objetivo para o qual nos fomos criados, é a própria razão para o qual fomos criados.
Sim, a criação do homem e da mulher tem sua origem num projeto de amor de Deus. É Ele mesmo que nos revela o seu segredo quando diz em Genesis: Façamos o homem á nossa imagem e semelhança. Notem o plural: façamos, que indica a Trindade conversando entre si. Não se trata aqui de explicar a Trindade. Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas distintas e completas tão perto, tão interpenetradas pelo amor que se abraçam e se enlaçam em uma só. Movida por este amor a Trindade decide criar um outro diferente de si, mas com a mesma dignidade e capacidade relacional para convidá-lo a fazer parte desta eterna comunhão de amor. Por isto ora Jesus no NT: assim como tu és um em mim ó Pai, e eu um em Ti, sejam eles um em nós.
A oração do coração leva em conta esta realidade da união da alma com Deus, que permeia toda nossa história, nossa biografia, nossas circunstâncias, a consciência que tudo que acontece conosco acontece na presença do Deus amoroso e relacional. Assim, a oração de coração nos fala de intimidade, proximidade, amizade, de vida transparente e derramada diante de Deus.
Até aqui falamos de união, presença, intimidade. O que falar no entanto do silencio e da ausência de Deus? Não de uma ausência ou silencio absoluto e permanente, pois o céu está sempre aberto, mas daqueles momentos de nossa vida quando lançamos um grito agoniado do fundo do nosso coração e os céus nos parece vazio, como se entrássemos num deserto. Aí temos a tentação de construir uma imagem, um ídolo que nos paparique, nos reassegure, que substitua Deus. Ídolos são mudos, não falam. Imagem tem a ver com imaginação, com fantasia, isto é, recorremos a nossa imaginação para preencher o vazio, imagem à nossa imagem, de acordo com os nossos desejos, um deus que é uma projeção nossa, que é aquilo que gostaríamos que ele fosse.
Assim entramos no deserto eventualmente, o deserto é necessário por várias razões:
Primeiro porque não podemos reduzir Deus a uma simples companhia, que é está lá ao nosso dispor a qualquer tempo. Deus sendo Deus o todo Poderoso não poderia se mostrar de maneira prolongada a nós. Ninguém suportaria tal realidade. Assim aprendemos que a intimidade com Deus se mistura ao temor, ao respeito, reverencia, à humildade. Não se pode banalizar.
Em segundo lugar quando falamos da ausência de Deus ou do silencio de Deus, nos lembramos que é principalmente o homem que se mostra ausente, alienado e distante de Deus. Quantas vezes terá ele batido à nossa porta, sem que o escutássemos? O deserto nos lembra da nossa condição de fragilidade, alienação, humanamente em direção contrária ao projeto de Deus. O deserto nos lembra sede, desejo, saudade.
Por isso, talvez, os santos do AT e NT e o próprio Jesus Cristo passam algum tempo no deserto. Sem distrações, sem ninguém para culpar, sem estímulos. Sós diante de Deus. A espiritualidade clássica nos ensina que a contemplação é exatamente esta atitude de coração, de estar e silêncio atento diante da face silenciosa e amorosa de Deus.
Não nos esqueçamos, no entanto, que o Senhor nos ensina que a única maneira concreta de amar a Deus, é amando o nosso próximo. Isto quer dizer que uma vida de oração e contemplação desemboca irreversivelmente em uma vida de comunhão, serviço, de amizade, de solidariedade, de hospitalidade e de atitudes concreta de amor em direção ao nosso próximo. Ora et labora. A meditação e o socorro aos necessitados.
Assim percorremos este caminho de fé: com os olhos de nosso coração nos contemplamos o Senhor, e com estes mesmos olhos nós descobrimos a Jesus Cristo no rosto do nosso próximo.
Surge no meu coração um desejo incontido de orar:
Tu em convidas a chegar-me a ti
Tu me surpreendes com este teu convite
Eu acho muitas vezes que primeiro tenho que me desembaraçar dos meus fardos, só então eu estaria pronto para ti.
No entanto, tu me chamas tal como estou, com minhas inquietações e desassossegos de alma.
Tu me constranges com este teu amor irrestrito,
Tu me acolhes tal como sou, tal como estou.
Já não há mais tempo para preparativos ou justificativas,
Venho como sou, venho como sou.
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